Mente crônica

"A mãe olhou para a filha como quem diz: 'Assista ao filme', e voltou os olhos para a tela do celular."

8 de setembro de 2015

A insensibilidade do sensível

 

por Rivo Simões

 

Este final de semana fui ao cinema no Leblon assistir ao filme “O pequeno príncipe” (Le petit prince) na versão dada pelo diretor Mark Osborne (2015).

 

Na plateia, diversos pais acompanhavam seus filhos com idade entre quatro e sete anos.

 

Quando vou ao cinema, incomoda-me o fato de ouvir murmúrios ou pessoas conversando, comentando o filme ou fazendo barulho, mas, especificamente nos filmes infantis, acho interessante e até gosto de ouvir os comentários das crianças e também de perceber suas reações e inquietações sobre questões que muitas vezes passam despercebidas ao olhar adulto.

 

Ouvi comentários (das crianças) como:

- Ele ficou tão triste que morreu!

- Eu tô cansado, esse filme não acaba nunca!

- Esse menino é muito muito corajoso!

 

Acho louvável a atitude dos pais de levarem seus filhos para assistirem a um filme que reproduz um clássico da literatura infanto-juvenil, entretanto, essa atitude isolada pode ser vazia e estar fadada ao fracasso se a sua intenção era educar e sensibilizar seu filho às questões abordadas na história do pequeno príncipe.

 

Durante o filme, uma mãe sentada ao meu lado não parava de mexer no seu smartphone. A luz da tela do celular que encandeava em meio ao escuro do cinema atrapalhava a minha concentração e ofuscava o brilho do filme. Foi quando a filha desta mulher perguntou: - Mãe, por que não pode ter criança nesse lugar?

A mãe respondeu: - Não pode? Pode.

 

Era uma cena de um lugar onde os adultos haviam se esquecido da simplicidade da vida.

Um pouco mais para o final do filme uma personagem falou: “Nós corremos o risco de derramar algumas lágrimas quando nos deixamos cativar!”.

 

Imediatamente a mesma garota, que tinha não mais que sete anos, perguntou para sua mãe, que agitada tirava o celular da bolsa e o guardava incessantemente: - Mãe, o que é cativar?

A mãe olhou para a filha como quem diz: “Assista ao filme” e voltou os olhos para a tela do celular. A garota fez mais uma vez a pergunta e a mãe silenciou.

 

Lembrei-me de que o pequeno príncipe jamais renunciava a uma pergunta uma vez que a tivesse feito. Lembrei-me também de que, no livro, o principezinho perguntou três vezes à raposa o que quer dizer cativar. O pequeno príncipe teve a sua resposta: “Significa ‘criar laços...’”

 

Saí do cinema desejando esperançosamente que aquela garotinha tivesse a sua pergunta respondida pela mãe, interessada no celular, caso a pergunta fosse feita pela terceira vez.

 

 

Rivo Simões

É advogado graduado em direito pelo

Centro de Ensino Universitário do Maranhão.