Mente crônica

"[...] alguma coisa na cafeteria ao lado me parecia mais atrativa."

13 de fevereiro de 2016

 

Na cafeteria do mundo

 

por Rivo Simões

 

Eu não me considero uma pessoa religiosa, mas, passando pela Rua Barão de Ipanema – uma rua de Copacabana – entrei na Igreja Católica que lá fica. Entrei para pedir que Deus me aliviasse a dor nas costas. Todos os santos da igreja estavam cobertos com um manto roxo. É quaresma.

 

Depois da oração, voltando pra casa pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana, me veio uma enorme vontade de tomar sorvete: menta com flocos, como de costume. Todavia, quando cheguei à frente da sorveteria, na Rua Constante Ramos, alguma coisa na cafeteria ao lado me parecia mais atrativa. Desisti do sorvete e entrei na cafeteria. Subi ao mezanino e sentei-me a uma mesa de onde eu podia ver a movimentação local. Ninguém me atendeu. De lá, fitei, na estufa de doces que fica no canto de baixo, um cookie de amêndoas que me trouxe à lembrança um saboroso muffin de chocolate e de café, recheado com creme de queijo e com cobertura de amêndoas, de um restaurante, em Nova Iorque, que não existe mais. Ninguém me atendeu.

 

Pensei que seria um desperdício comer aquele biscoito de amêndoas e tomar um café sem aproveitar aquela atmosfera de um dia nublado depois da quarta-feira de cinzas para escrever uma crônica e ler os meus textos de Direito Constitucional. Mas tinha que busca-los em casa, há duas quadras dali. Dessa vez, gostei de não ter sido atendido de pronto pela garçonete. Levantei-me. Ao sair da cafeteria, uma mulher, que tinha me visto entrar, olhou-me de novo como quem diz: “- Esse aí não teve paciência”.

 

Do lado de fora da cafeteria, avistei novamente a sorveteria e voltei ao desejo inicial. Entrei, pedi uma bola: “– Menta com flocos!” –, e fui para casa pegar os textos. Lá, resolvi tomar um banho e vestir a mesma roupa que havia vestido durante a manhã, mas apenas quando peguei a camisa dei-me conta de que, pela manhã, eu havia vestido o mesmo roxo daqueles santos das linhas superiores, o roxo da penitência. Peguei o meu crucifixo de prata e coloquei-o no meu pescoço. O meu crucifixo... não gosto muito de usá-lo, prefiro deixa-lo em casa para me proteger dos arrastões.

 

Voltei à cafeteria. Ela estava mais cheia, o meu lugar estava tomado e o cookie não estava mais na estufa. Então, sentei-me a outra mesa e, para acompanhar a minha crônica, pedi um chocolate quente e um croissant.

 

Rio de Janeiro, 11 de fevereiro de 2016.